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12.9.08

Koleston e eu 

Senhorita K. foi na colação da amiga e do amigo furão. A amiga ficou chocada ao saber que Senhorita K. tem, na pequena prateleira do banheiro um redutor de olheiras, máscara de pepino, máscara de aveia, máscara minimizadora de poros, máscara anti-oleosidade, adstringente, sabonete esfoliante, anti-espinhas e um pote novinho de renew. Renew?, ela disse. Sim, Renew. Senhorita K. aprendeu com uma moça de um outro trabalho que ruga a gente previne antes de ela aparecer. Ela, no caso, prevenia desde os vinte e cinco com botox, mas isso é outra história. Senhorita K. aprendeu também, muito mais cedo, que sua pele não era exatamente um pêssego. E luta meio preguiçosamente contra isso.
Quando fez vinte e sete e percebeu que os trinta estavam logo ali na esquina dum vinte e três de maio qualquer, Senhorita K. resolveu aderir a novas medidas. A primeira delas, o renew.
A segunda delas não é exatamente uma medida nova, mas uma resolução que se tornou lei outro dia, perto de outra amiga.
Senhorita R. estava sentada, Senhorita K. em pé, quando viu os cabelos brancos no cocoruto da moça. Vinte e três anos. Pediu permissão e arrancou tudo, até uns fios coloridos no meio.
Senhorita K. se deu conta, em choque, que se a amiga de vinte e três já os tem, os seus fios brancos estão, também, logo ali numa esquina.
E ela tomou imediatamente uma resolução: como faz desde os doze anos, vai continuar colorindo os cabelos de cores variadas até que a morte a separe do Koleston vermelhos especiais ou preto azulado.
Ela até cogitou, como fez há certo tempo, deixar os cabelos na cor natural castanho sem graça por um tempo. Mas já desistiu. Não quer ter a desagradável surpresa de encontrar no espelho, além das espinhas, dos cravos, das marcas, dos olhos levemente tortos, do lábio um pouquinho levantado pra um lado, do nariz de batatinha, um cabelo branco. Nunca.

postado por antonina kowalski às 13:19
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26.8.08

Fantasia 


Senhorita K. já tentou fazer academia algumas vezes. Muitas. Em todas, deu errado. Não ia à aula, odiava os instrutores, odiava os outros academistas, odiava os espelhos, odiava as roupas e, especialmente, odiava suas gordurinhas.
Quando, em 2008, as gordurinhas começaram a ser um fardo e um peso maior que sempre foram, Senhorita K. resolveu tomar uma atitude.
Resolveu fazer uma atividade diferente.
Foi fazer balé.
Senhorita K. mal consegue colocar o pé em primeira posição, graças aos anos de botinha ortopédica que a mãe lhe impôs.
Mal consegue ficar em meia ponta.
Mal consegue se equilibrar longe da barra.
Mal consegue entender a seqüência de pernas abertas, pés pros lados, rodopios, trocas e dobras que cada passo de nome francês exige.
Mas os momentos de pânico verdadeiro surgem mesmo quando Senhorita K. tem de dar piruetas, saltos ou pulinhos discretos. Nesses momentos, Senhorita K., que é uma das duas iniciantes completas da turma (a outra é Senhorita R.) e a mais cheinha da turma, se sente uma das hipopótamas dançantes de Fantasia. Sente que, a qualquer momento, o chão vai quebrar ante seu peso desabando no chão numa tentativa desajeitada de plié.
Mas tudo bem. Senhorita K. se diverte, ante o próprio episódio dantesco de suas investidas pelo mundo de Ninjinski. E sente um pouco de vergonha pela gordura e pela flacidez. Mas só um pouco.

postado por antonina kowalski às 10:14
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13.8.08

Senhorita K. e o Olimpo 

Senhorita K. adora esportes olímpicos. Mas alguns deles se recusaria a praticar. Por motivos diversos, não se adequam à personalidade luminosa dela.
Ginástica olímpica: Senhorita K. acha tudo lindo, morre de vontade de colocar o pé na cabeça, mas, sinceramente, misturar mel com magnésio e passar no corpo para dar mais aderência? Não.
Vôlei de praia: areia entrando pelos fundilhos, ladinhos, pelo olho, na boca, no cabelo. Diz que até no ouvido entra areia. Affe.
Hipismo: é chic de doer. Dói tanto que dá hemorróida.
Ciclismo: também dá hemorróida e assaduras. E nem é chic.
Judô: é inaceitável uma luta em que sua roupa fica saindo, desarrumada, o tempo todo, e você só pode arrumar no final.
Nado sincronizado: um pregador no nariz? Nunca.
Luta livre: roupas horrorosas e nem tem gel.
Saltos ornamentais: já viram os maiôs das moças entrando por todas as fendas no impacto do salto? Pois é, todo o mundo já viu. Todo o mundo.
Vela: ninguém assiste, ninguém entende, a gente só sabe que o loiro gatão ganha ouro. E a visibilidade no Jornal Nacional, onde fica?
Hóquei, badminton, softball: são esportes que obviamente não existem e integram o time das ilusões coletivas ao qual pertencem as girafas.

Agora, existem outros esportes que, por outro lado, Senhorita K. ficaria tremendamente feliz em praticar olimpicamente. A maioria deles, por pura inveja:
Salto com vara: todas elas têm corpão.
Ginástica rítmica: é lindo, tem fitas coloridas, colãs brilhantes, maquiagens de drag queen e corpão.
Tiro: alivia todas as tensões. E a gente sempre pode fingir que o alvo é o chefe.
Natação: quem se importa em nadar? Senhorita K. ia ficar olhando os nadadores gatões.
Tênis: saiotes e vestidinhos lacoste que nem os da família finzi-contini. Chic. Chic.

postado por antonina kowalski às 14:08
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11.8.08

O Olimpo, pt. 2 

Ver a olimpíada é realmente uma prova de que os gregos estavam certos em adorar os deuses. Todos eles. Menos Hefesto, que, dizem era feio como o quê. E Senhorita K. finalmente entende, vendo todos os deuses não astronautas mas estrangeiros, sua adoração infantil por mitologia.
Mas ver olimpíada também propiciam momentos de puro deleite cômico. Como a cena da madrugada do sábado:

3h30 da manhã, Senhorita K. acorda Sr. Namorado.
- Acorda!
- Que foi?
- Está tocando Ilariê no vôlei de praia.

O olhar assassino que se seguiu à frase, infelizmente, não pode ser reproduzido em palavras.

Ou a cena da segunda à noite:

19h30 da noite, Senhorita K. liga para Sr. N.
- Está tocando Ilariê nos saltos ornamentais.
- Han?
- Em Pequim!
- Han?
- Em espanhol!

Alguns segundos até a compreensão e risada inconfundível de Senhor N. ante à globalização da rainha dos baixinhos em Pequim.

postado por antonina kowalski às 15:40
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O olimpo 


Senhorita K. nunca foi boa em esportes. Nenhum esporte. Senhorita K. era um verdadeiro fiasco. Tanto que, lá pelo sexto, sétimo gesso na perna, seu pai a aconselhou a nunca, nunca mais praticar nenhum esporte que envolvesse contato com outras pessoas, para evitar o risco.
Senhorita K. seguiu à risca o conselho.
Não que ela goste lá muito de esportes. Mas Senhorita K. é viciada em jogos olímpicos. Não gosta muito, é verdade, desses jogos disputados do outro lado do mundo, com fuso horário invertido. Isso a obriga a ficar acordada até 2h, 3h da madrugada e acordar novamente às 6h, pra não perder nada. Nadinha.
Há momentos inesquecíveis, emocionantes, divertidos, vergonhosos. E há, claro, os homens olímpicos. Vendo a olimpíada Senhorita K. entende o original e mais puro significado dos jogos: o culto ao corpo e à beleza. Fair play... pfff...
Senhorita K. teve uma amostra clara do que seriam esses jogos logo na abertura, ante a visão da delegação espanhola. Jesus. Beleza, beleza, beleza, barbas, cabelos ao vento e braços enormes.
E aí tudo se concretizou e todas as horas gastas diante da tevê valeram a pena na premiação do revezamento quatro por cem. Não, não é o Phelps, por quem Senhorita K. sente simpatia desmedida. Foi o segundo australiano, esquerda para direita, ganhando a medalha de bronze. Um loiro alto, bonito e sensual, do jeitinho que a música pediu a Deus. Lindo, lindo. Um verdadeiro deus grego com corpão. Pode ser melhor? A pena é que dura só quinze dias.

postado por antonina kowalski às 10:33
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17.7.08

Sintonia fina 



Porque tem gente que sempre pensa o que a gente está pensando em fazer, no tempo exato. O moço que desenha essas senhoritas que não são K mas bem poderiam, é assim. Bem no dia em que Senhorita K. se olhou no espelho e viu o tamanho (literalmente) do desastre iminente, ele deu um recado. Pra ver mais senhoritas em poses variadas e emoções idem, moidsch.

postado por antonina kowalski às 22:52
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16.7.08

O Cortiço 

Não, não se trata de Aluísio Azevedo e suas mulatas Ritas rebolativas, nem de caboclos enfezados com peixeiras na mão. Mas poderia.
Senhorita K. mora num dos mais modernos cortiços da classe média candanga. Recheado com dez prédios de quitinetes e infinitos apartamentinhos minúsculos, o lugar não teve morte. Ainda. Tempos atrás, o condomínio foi acordado por volta das cinco da manhã por uma briga de casal dessas de novela. Gritos, choros, portas batidas, escândalos e tudo o mais. A cena foi tão divertida que, no dia seguinte, um dos pivôs da discussão pregou um papel nos elevadores pedindo desculpas pelo ocorrido.
Mas é na janela que se desenrolam as situações mais animadas do condomínio. Uma vizinha, por exemplo, adora trocar a blusa na janela. Aberta. Senhorita K. viu um dia, desviou o olhar. Outro dia, a moça resolveu fazer de novo. Tirou a blusa. Mas decidiu tomar banho. Entrou no chuveiro – sem cortina ou box, uma pobreza, e lá estava lavando a cabeça. Quando, de repente, o namorado entra junto para tomar banho! Sexo no chuveiro com a janela aberta... Poderia ser melhor?
Ah, poderia. Outro dia, Senhorita K. estava à janela observando seu fat naked guy do prédio da frente. O moço passa dias e noites vendo tevê só de cuecas ou mesmo sem elas. Até aí, nada demais, o moço gosta de ar na barriga.
Mas eis que numa noite Senhorita K. flagra o moço acariciando as partes íntimas com a janela completamente aberta! Sim. Batendo uma. Dias depois, o moço estava de roupão, no sofá. Tomando vinho. E acariciando um outro moço.
Senhorita K. pensa: quem precisa de canal pornô na sky quando tem isso? Não que ela sinta alguma felicidade no fat naked guy, mas ri que nem nos filmes de Emanuelle.
Mas a verdadeira indignidade do condomínio nem são as brigas, nem as cenas de sexo, nem o voyeurismo de Senhorita K. A verdadeira indignidade é morar num condomínio de apartamentos microscópicos e não colocar sequer uma cortina simpática à vista. Senhorita K., por exemplo, tem persianas pretas para esconder a luz e acalmar a alergia. Mas nunca teria um cobertor xadrez feio tampando a luz do dia e enfeiando não o apartamento, mas também a vida dos vizinhos que só têm um cômodo para viver. Dignidade, tok stok e bom gosto são tudo na vida.

postado por antonina kowalski às 12:23
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